Cynthia Rosenburg, editora-executiva de Época NEGÓCIOS, e a repórter Aline Ribeiro discutem nesse espaço sustentabilidade e empresas.
 
 
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Consumismo verde?

Há várias novidades na onda de interesse por assuntos relacionados ao meio ambiente que se alastra pelo mundo. Uma delas, no contexto das empresas, é a proliferação de produtos “verdes”. Mais do que cuidar da gestão ambiental de suas fábricas e escritórios, as empresas tentam provar que são capazes de criar produtos que ajudam os consumidores a reduzir os danos do consumo ao meio ambiente. Nos últimos meses, surgiram itens de todos os tipos: lápis feitos de madeira certificada, roupas de algodão orgânico, carros menos poluentes, casas carbono-neutro e até artigos eróticos ecologicamente corretos (como você poderá ler na edição de Época NEGÓCIOS que chega esta semana às bancas).

O fenômeno já está irritando alguns ambientalistas mais radicais, como mostra uma reportagem recente do The New York Times. Para esses críticos, o marketing dos produtos verdes seria um incentivo ao “consumismo verde” – aquele que leva as pessoas a escolher produtos de menor impacto ambiental, mas sem considerar que o efeito cumulativo do consumo continua sendo perigoso para o planeta. “Existe uma idéia generalizada segundo a qual tudo o que precisamos fazer para evitar catástrofes em escala planetária é tomar decisões de compra ligeiramente diferentes”, disse Alex Steffen, do site
Worldchanging.com, ao jornal. Para críticos como Steffen, a solução para a crise ambiental não é consumir verde, mas consumir menos.


Mais consumismo verde

Perguntei a Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu e um dos maiores especialistas em consumo consciente no país, o que ele pensa disso:

. Estamos vivendo uma onda de "consumismo verde"?

Estamos vivendo uma fase na qual as pessoas se deram conta que terão de modificar seus hábitos de consumo se quiserem preservar a vida no planeta na forma como a conhecemos. É natural que essa mudança comece na margem do consumismo que predomina na sociedade atual. Assim, é de se esperar que haja a troca do modelo de lâmpada, do combustível do carro e da matéria-prima da roupa. Essas mudanças são necessárias e ajudam, mas certamente não são suficientes para a solução dos problemas ambientais atuais. Todo consumo exige a utilização de energia em seu processo produtivo. A geração de energia contribui para o aquecimento do planeta. Não há jeito: é preciso reduzir o consumo, seja repensando o estilo de vida ou reutilizando produtos até o final de sua vida útil.

. Nos Estados Unidos, segundo o NYT, 35 milhões de pessoas compram regularmente produtos rotulados como ecológicos. Como é o comportamento do consumidor brasileiro?

Uma pesquisa realizada pelo Akatu no ano passado mostrou que 41% dos brasileiros demonstram preocupação em comprar produtos que não agridam o meio ambiente. Entre a população de consumidores mais conscientes, que representam um em cada três brasileiros, 51% declaram já ter orientado uma escolha de compra pelo critério ambiental. Outro dado interessante é que 37% dos brasileiros afirmam que estariam dispostos a pagar mais por um produto que tivesse um selo ambiental.

. O movimento ambientalista deveria trocar o mote “consuma verde” por “consuma menos”?

Eu diria consuma verde e menos. Não existe vida sem consumo e não existe consumo sem impacto. Nesse impacto, é fundamental consumir menos para haver menor demanda pela transformação de recursos naturais, dessa forma necessitando menos energia no processamento e no transporte. Mas sempre haverá consumo, pois consumo é vida. Na hora em que o consumo é realmente necessário, então, “consuma verde”.

. Uma empresa pode produzir um produto “verde” e utilizar processos de fabricação poluentes ou ter outros produtos que não são nada ecológicos. Como o consumidor pode se proteger disso?

Para que um produto seja “verde”, seu processo de produção também deve ser. Assim, uma empresa pode começar por tornar verde a linha de produção de um bem antes de fazer isso com o processo produtivo de um outro bem. Isso quer dizer que ela estará fabricando um produto “A” de forma ecológica e um produto “B” de forma poluente. Mas, nesse caso, só o produto “A” poderá se beneficiar de um selo ambiental.

Para que o consumidor possa se proteger, é preciso que ele verifique se o produto tem uma certificação que garanta a adequação ecológica de seu processo produtivo. Se não tiver, ele deve simplesmente perguntar à empresa. No Brasil, ainda é pequeno o número de empresas que informam o consumidor sobre as características de seu processo produtivo. Quanto mais consumidores indagarem, maior a probabilidade de as empresas passarem a informar.

04/09/2007

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