Cynthia Rosenburg, editora-executiva de Época NEGÓCIOS, e a repórter Aline Ribeiro discutem nesse espaço sustentabilidade e empresas.
 
 
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Quem quer carona?

Para tentar diminuir o número de automóveis nas ruas de São Paulo, onde os congestionamentos pioram a cada semana, e reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa está sendo lançado hoje, durante a Conferência do Instituto Ethos, um site que pretende ajudar as empresas a incentivar seus funcionários a oferecer carona.

Inspirado em modelos internacionais, o “MelhorAr, Compartilhe suas Viagens” é simples: profissionais com e sem carro preenchem um formulário informando onde moram, se são ou não fumantes, se gostam de ar condicionado, entre outros. Um sistema cruza essas informações e apresenta aos inscritos possibilidades de carona em dias e horários pré-agendados. “O programa mostra a rota do motorista e as pessoas que moram perto dele”, diz Lincoln Paiva, da Believe Marketing Services, uma das empresas idealizadoras do projeto. “Em seguida, basta o dono do carro escolher, baseado em afinidades, para quem vai dar carona.”

Patrocinada pelos próprios criadores, a idéia é que, no futuro, o projeto ganhe incentivos financeiros e possa oferecer novos serviços. “Quem oferece carona vai ganhar um selo para colocar no seu carro. Se tivermos a ajuda de parceiros, esses motoristas poderão ter alguns benefícios, como descontos em estacionamentos de shopping”, afirma Miguel Aschieri, da Wise Consultoria, que desenvolveu a parte técnica da plataforma na web.

Além de cruzar as rotas dos funcionários, o site calcula a redução de emissões e informa quantas árvores o motorista deveria plantar para neutralizar os gases liberados pelo seu carro. A instalação do sistema é gratuita e os interessados podem obter informações no site
www.projetomelhorar.com.br. Depois de testado em São Paulo, o projeto deverá ser levado para Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Segundo Lincoln Paiva, se uma pessoa pára de usar o automóvel durante um ano, considerando uma distância de 6 km entre sua casa e o trabalho, 480 kg de dióxido de carbono deixam de ser emitidos na atmosfera. A meta dos idealizadores é que, em três anos, um milhão de carros deixem de circular em São Paulo.

(Aline Ribeiro)

29/05/2008
A distância entre a percepção e a ação

As empresas brasileiras estão atentas à sustentabilidade e à responsabilidade social, mas ainda não transferem esses conceitos para a gestão. É o que mostra a parcial de uma pesquisa realizada pelo Instituto Ethos, pelo Instituto Akatu e pelo Ibope, com apoio da Kellogg Foundation, divulgada hoje durante a Conferência Internacional do Ethos. “O movimento avançou nos últimos anos, mas somente sob o ponto de vista da percepção”, afirma Ricardo Young, presidente do Ethos. “As empresas sabem que existem ferramentas e indicadores para atingir melhores resultados, mas a incorporação disso na gestão ainda é muito incipiente.”

O levantamento baseou-se em respostas de executivos de 745 companhias – pequenas (83%), médias (9%) e grandes (8%) – e indicou que a maioria das empresas evoluiu nas práticas de responsabilidade social e sustentabilidade apenas nas relações com os funcionários e consumidores. “Falta levar isso para o relacionamento com outros públicos”, diz Young.

Segundo a pesquisa, 72% das companhias asseguram aos trabalhadores uma remuneração que garanta um nível de vida adequado para eles e suas famílias e 65% têm normas e processos que visam evitar assédios moral e sexual. Sobre as relações com os consumidores, o estudo indica que 56% delas mantêm procedimentos para avaliar a eficácia e a rapidez em resolver demandas de clientes e 73% respeitam a privacidade dos consumidores.

Meio ambiente

A pesquisa trouxe um alerta: a maioria das companhias ouvidas ainda não se preocupa com a mudança climática. Do total, 82% não têm um programa específico para a redução de gases causadores do efeito estufa. Além disso, 72% delas jamais discutiram a possibilidade de realizar um inventário de suas emissões.

As empresas estão mais avançadas em relação a outros temas ambientais: 55% mantêm programas para a racionalização e otimização do uso de energia, 54% têm programas relacionados ao uso de água e 49% realizam coleta seletiva de lixo não industrial.

Quem cuida do assunto?

De acordo com a pesquisa, em 40% das médias e grandes empresas, temas relacionados à responsabilidade social e sustentabilidade ficam a cargo da área de recursos humanos. Em 43% das pequenas empresas, a área administrativo-financeira é quem cuida dessas questões.

O levantamento mostra que 9% das grandes companhias brasileiras têm uma área específica para o assunto. “O percentual de empresas com uma área destinada à responsabilidade social é positivo”, diz Young. “Há dois anos, o número era bem menor.”

A Pesquisa Nacional de Práticas e Perspectivas de Responsabilidade Sócio-Empresarial (RSE) levou em conta 29 critérios referentes à sustentabilidade relacionados a sete grandes temas: direitos humanos, direitos das relações de trabalho, proteção das relações de consumo, meio ambiente, ética e transparência, diálogo e engajamento dos stakeholders e governança coporativa. Os resultados finais do estudo estão previstos para o início de junho.

(Aline Ribeiro)

29/05/2008
Jogo de empurra

Uma discussão acalorada em torno da polêmica do enxofre no diesel marcou o final do dia ontem na Conferência Ethos 2008. A novela já está rolando desde setembro de 2007, quando o Ministério Público, pressionado pela sociedade civil e por movimentos como o Nossa São Paulo, exigiu que a Petrobras cumprisse lei e vendesse diesel com menos enxofre.

A história, um tanto complicada, é a seguinte: de acordo com a resolução 315/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o limite do teor de enxofre no diesel distribuído no Brasil deve ser 50 partes por milhão (ppm) a partir de janeiro de 2009. A proporção atual é muito superior a isso: 500 ppm em regiões metropolitanas e 2000 ppm no interior. O enxofre é cancerígeno e responsável pela morte de 3 mil pessoas por ano só na capital paulista, segundo estudos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

De quem é a culpa?

Mais uma vez, o jogo do empurra tomou conta da discussão. A Petrobras diz que não se preparou para a produção do diesel limpo porque desconhecia as especificações técnicas que o combustível deveria ter. A responsável por elaborar essas “especificações” é a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), que não estava presente no debate (a ANP estabeleceu as normas em outubro de 2007, cinco anos depois de o Conama exigir as especificações). Na outra ponta, a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), representante das montadoras, afirma que não pode fabricar veículos com motores adaptados ao novo diesel, os chamados Euro IV, por não saber que diesel é esse.

No final do ano passado, a Petrobras anunciou que colocaria à venda até janeiro de 2009 o diesel mais limpo, conforme determina a lei. Porém, condicionou a venda à fabricação dos tais carros readequados. Ontem, durante a conferência, outra questão foi levantada: um estudo do Ministério da Indústria e Desenvolvimento que comprova os benefícios da utilização do diesel com 50 ppm mesmo em veículos antigos. A Petrobras não se pronunciou a respeito.

Ataque

Eduardo Jorge, secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, questionou, durante toda sua fala, a falta de posicionamento da Petrobras, da Anfavea e da ANP. Usou a palavra “conspiração” para sugerir a falta de interesse das partes em resolver o problema do enxofre e afirmou não admitir que a estatal produza o combustível mais limpo em “doses homeopáticas”, como tem sido proposto. Inspirado nas “metáforas futebolísticas apreciadas pelo querido presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, ele disse que a Petrobras, a Anfavea e ANP são, assim como o Fluminense, um time - e que deveriam fazer gol juntos. “Aqui acontece o contrário. Não fazem gol e ainda colocam a culpa no outro - no caso, na ANP, que nem aqui está.”

Pressionado por Jorge, Frederico Kremer, gerente de soluções comerciais da área de abastecimento da Petrobras, disse que até janeiro de 2009 a estatal vai cumprir a resolução do Conama. Perguntou-se, então, se o diesel de 50 ppm vai estar presente em todos os postos de gasolina ou se apenas numa pequena parcela do mercado. “Vamos atender 8% dos carros adaptados”, afirmou Kremer. Uma vez que a Anfavea disse que os veículos novos não estarão prontos, não terá combustível limpo? “É a mesma coisa de eu prometer te dar um Porsche, mas só depois de você comprar uma ilha na Grécia”, compara Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo. Henry Joseph Junior, presidente da Comissão de Energia e Meio Ambiente da Anfavea, limitou-se a dizer que não pode responder, em nome das montadoras, quando conseguirão entregar os carros adaptados.

(Aline Ribeiro)

30/05/2008

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